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1 de dez de 2016

Sobre depressão e as voltas que a vida dá

Olhando o Thames e pensando "por que a vida tá tão ruim?"

Fim de ano, análises, promessas, enfim. Sabe como é. Senta que lá vem textão.

Hoje eu quero agradecer aqui um cara que eu nem me lembro o nome e que provavelmente jamais verei outra vez nessa vida. Mas ele tem uma importância surreal para a história que conto a seguir.

2014 foi um ano bem cagado na minha vida pessoal. Eu estava em frangalhos, achando que a única solução era me mudar pra Londres novamente. Então, me mudei pra Londres pra uma nova temporada. Só pra eu entender que nem mesmo Londres pra salvar aquele ano. Tava foda.

Foi lá, inclusive, que eu tive as crises mais loucas de ataque de pânico e pensamentos suicidas. Os três dias que passei em Edimburgo foram os mais terríveis de toda a minha bad. Na real eu achava que era bad, mas era depressão. E das graves. Isso foi um pouco antes do Natal e eu estava contando as horas para a virada do ano, para um novo começo, para uma mudança. Para alguma coisa que me tirasse daquele buraco.

Eu tinha ingresso para assistir aos fogos na London Eye, um espetáculo que eu sonhava há anos. Mas eu teria que ir sozinha e fiquei com muito medo de acabar fazendo merda. Uma amiga me convidou pra uma festa num pub. E achei por bem que era a melhor opção a se fazer.

Sou eu sorrindo e vivendo o pior dia de toda a minha temporada no Reino Unido (Edimburgo)

Fui e tava lidando bem com a situação. Tava joia. Tava me divertindo. Daí contagem regressiva, 4, 3, 2, 1 Feliz 2015 e... eu continuava me sentindo um lixo. Nem mesmo a esperança de um novo começo me atingiu naquele momento e num revés muito louco, caí num pranto nunca antes visto nos meus então 28 anos de vida. Corri para o banheiro, mas estava tão lotado que não dava nem pra se esconder e chorar.

Ainda fugindo dos amigos que estavam no pub, corri para a porta e o segurança dizia: "Se sair não pode entrar". Ao que eu dizia "só preciso de 5 minutos, eu fico aqui, do seu lado". E ele "se sair não pode entrar". O gerente da casa viu a treta e veio me perguntar o que havia, ao que eu, em meio a choro, soluços e fungadas, tentava dizer: eu só preciso de um canto pra chorar sem estragar a festa de ninguém.

O que aconteceu em seguida pode ter simplesmente salvo a minha vida. Ele colocou seu casaco em mim (ah, é, eu estava de vestido sem mangas num frio de zero grau) e me acompanhou pra longe da porta. Eu chorava e dizia que não era preciso, eu só queria um tempo fora dali. Ao que ele me respondeu "Vou ficar aqui com você, o tempo que for necessário". E eu chorei. E eu chorei muito. Eu chorei sem parar por uns 40 minutos. E ele lá. No frio. Dizendo que tudo ia ficar bem, que tava tudo bem.

Enquanto eu chorava, ele me contava que era gerente do pub, que era casado, tinha uma filhinha. Que gostava do pub, que o pessoal não fazia arruaças por ali. Me perguntou de onde eu era. Quando consegui falar que era brasileira, ele falou de futebol, de praia, de sol e de carnaval. Contou do seu time do coração, dos tempos dos hooligans, que Londres é muito louca. E eu chorava. Mas ele continuava ali, sem me apressar. Congelando no frio de zero grau.

Quando eu finalmente consegui me acalmar, ele falou: "por favor, me prometa que você vai buscar ajuda". E eu prometi.

O problema não é estar só. O problema é sentir-se só o tempo todo

Duas semanas depois do episódio, eu estava de volta ao Brasil. Pesquisei várias linhas terapêuticas e decidi que queria seguir a transpessoal, mas não achava ninguém que trabalhasse com isso em Goiânia (ou melhor, achei, mas era muito mais do que eu poderia pagar).

Um mês depois topei com uma amiga da faculdade que não via há anos. Ela me contou que havia desistido do Jornalismo e que agora dava aulas de yoga, que isso tinha mudado a vida dela. Sei lá por que, nem éramos próximas, mas contei do período que estava vivendo e ela me convidou para assistir sua aula (nunca mais deixei de fazer yoga desde então). Não bastasse isso, ela me indicou sua própria terapeuta, que além de seguir a linha transpessoal, cobrava um preço pagável pela consulta.

Lá se vão quase dois anos de terapia e uma mente muito, mas muito mais tranquila e feliz. Já passei perto de receber alta algumas vezes, mas uma treta ou outra sempre me seguram por mais um pouquinho. Porque a vida é assim, uma montanha-russa mucho loca. A diferença é como você lida com ela. A terapia é isso aí: ela não vai impedir que as merdas aconteçam, mas ela vai te dar uma base firme para passar por elas, muitas das vezes sem nem mesmo se sujar. Se estiver na vibe boa, então, sequer sente o cheiro.

Agora estou eu aqui, com as malas quase prontas para mais uma vez ver o ano virar à beira do Thames, assistindo aos fogos da London Eye. Numa circunstância tão completamente diferente de 2014. Com muitos amigos queridos por perto e um namorado incrível. Passei um bom tempo do dia de hoje pensando se eu estaria fazendo e concretizando esses planos, não fosse aquele cara lá atrás, morrendo de frio, se doando e me fazendo prometer que eu procuraria ajuda.

Depressão é coisa séria. É uma doença grave e TEM CURA. Procure ajuda. Não se cale. Não se esconda. Não faça piadinha com o tema, não lide como se amanhã fosse passar. E por fim, vou sempre me lembrar desse cara do pub, cuidando de uma estrangeira desconhecida, oferecendo seu tempo e seu casaco, transbordando de compaixão e empatia. Seja esse cara. Obrigada, cara.
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