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20 de out de 2014

Interrompemos nossa programação...


Acho que aqui todo mundo sabe que sou a louca da Inglaterra e que amo a cultura, os passeios e as viagens que esse lugar proporciona a quem se arrisca a visitá-lo. Mas acho que é importante dar um choque de realidade a quem, assim como eu, já pensou em fazer desta a sua terra de oportunidades.

Eu no Brasil sou funcionária pública da ralé. Ganho o suficiente pra não morrer de fome e faço um trabalho burocrático e chato, mas que me permite pegar umas férias compridas pra gastar na Inglaterra, por exemplo. Então sim, tenho minhas regalias, embora não seja completamente feliz morando em Goiânia. Estou aí sempre nesse dilema: continuo minha vida pacata e segura ou abro mão de tudo pra tentar algo mais emocionante mundo afora? Pra ficar no meio do caminho, comecei a cogitar a fazer um mestrado de um ano na Inglaterra e como uma das exigências do curso é um diploma de inglês avançado, cá estou eu, gastando umas libras estudando pra esse bendito exame. Mas olha, o que tenho visto não me deixou muito animada, confesso.




Ano passado, quando estive aqui por dois meses, tinha uma boa grana economizada durante anos pra gastar, então fiquei na melhor casa, fiz o melhor curso de inglês e viajei tanto quanto meu ânimo me permitiu - o que foi bastante. Desta vez, com grana curtíssima e pagando quase 5 dilmas numa úúúúúnica libra, muita coisa mudou. Primeiro, a acomodação. Gastei minha primeira semana em Londres buscando um quarto pra alugar numa casa compartilhada. Até agora foi a pior coisa pela qual passei desde que cheguei. Achar um quarto decente pra morar nessa cidade com pouco dinheiro é missão só para os campeões. Eu passava a manhã inteira olhando tudo quanto era anúncio na internet e marcando pelo telefone horários para ver as casas durante a tarde.

"Nossa, Marla, que fácil issaê", você vai me dizer. Problema número 1: você liga, marca pra ver o imóvel e 2 horas depois o cara te liga pra avisar que já alugou o lugar. Isso quando liga. Problema número 2: o anúncio diz 400 libras por mês, com contas inclusas. Você chega lá e descobre que tem que pagar outras 100 libras de taxas e mais umas 80 ou 100 libras extras para cobrir as "contas inclusas". Problema número 3: o anúncio diz que é quarto de solteiro. Quando você chega, descobre que tem outas 3 ou 4 pessoas dividindo esse mesmo quarto. Problema número 4: não é uma casa, é um cortiço sujo e fedorento. Problema número 5: o quarto é perfeito e impecável, o preço é excelente, a casa fica num ótimo lugar, porém o landlord é louco de pedra e quer regular sua vida. Tudo isso fora todo o dinheiro que você vai gastar batendo perna nessa Londres, cujo único bilhete de transporte público custa mais que duas refeições diárias. Ou seja: é preciso coragem.




Por fim, dei muita sorte de achar essa casa onde estou, que é na zona 3 de Londres (nem tão perto, porém nem tão longe), de uma família simpática (embora com crianças barulhentas), com housemates bacanas (mentira, que só gosto da portuguesa - a australiana nunca limpa nada) e preço camarada. Pra você ver que existe amor em Londres, te conto que pago 380 libras por mês, com contas inclusas. Possível é, só que incrivelmente exaustivo também. Sorte aí pra você, se essa for sua empreitada.

Tenho conversado muito com uma galera que largou tudo no seu país para poder vir trabalhar em Londres e vou te dizer que não tem sido muito animador. Existem sim os casos da galera que ajeitou um trabalho bacana por aqui e ganha mais do que precisa pra sobreviver, porém acho importante pontuar que isso é basicamente exceção na Inglaterra. Inclusive, saiu um estudo (alguém tem o link?) mostrando que os jovens londrinos estão ficando cada vez mais deprimidos por perceberem que jamais terão dinheiro pra comprar sua própria casa e ter qualidade de vida. O pessoal que trabalha como vendedor em loja de shopping, por exemplo, passa 9 horas no trabalho (com 1 hora de intervalo) e tem 2 folgas loucas por semana, que nem sempre são juntas e jamais em dias fixos. Férias é só pra quem tem a sorte de ter bons contratos. Décimo terceiro, até onde sei, não existe. Toda vez que pergunto, o povo nem faz ideia do que tô falando. O salário, em média (vamos realçar o em média, tá?), fica em torno das mil e poucas libras. Daí você tira aí uns 500 paus de aluguel (no mínimo), outros 150 de transporte e uns 250 de comida e me conta quanto sobrou. Resumindo, nêgo trabalha pra morrer, passa 12 horas do seu dia em prol do serviço, não tem tempo nem ânimo pra se divertir, e muito menos um troco sobrando pra tomar um café (todo mundo reclama do preço do café aqui).




Além disso, como a concorrência nessa cidade é desesperadora, as pessoas tendem a se fechar pra se tornarem menos vulneráveis - o que deixa todo mundo (e não só os ingleses) muito sisudo, lutando aí no sistema cada um por si. Então é por essa razão que o pessoal da mesma nacionalidade acaba se unindo mais. O fato de terem a mesma cultura acaba sendo acalentador pras pessoas. Tenho visto muito disso aqui. Inclusive só me sinto protegida entre os brasileiros que se tornaram meus amigos e com a portuguesa que tem um quarto na frente do meu aqui em casa. Essas são as únicas que sei que posso contar. E não tô falando de me emprestar dinheiro ou coisas do tipo. Posso contar no nível "se eu sumir, alguém vai notar minha falta", ou "se eu passar mal, tenho alguém pra me levar no médico". Não é grana, é disposição e interesse.

É fato que o jeitinho brasileiro me irrita, mas a intransigência dos ingleses já tiraram muitos dos meus amigos do sério por aqui. Vou tomar o exemplo de uma amiga, que pediu um visto pra viajar no dia 6. Eles só entregaram o visto e o passaporte no dia 7. Como ela não poderia comprar outra passagem, acabou ficando no Brasil. Alguns meses depois, quando conseguiu ir pra Inglaterra, teve seu processo de cidadania adiado porque ela não embarcou imediatamente após a concessão do visto (que chegou atrasado). Segundo o governo britânico, ela tinha que ter se virado pra vir pra cá logo após receber o passaporte de volta. Quédizê. Asefudê, né? Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

E pra finalizar a conversa, o que ouvi de todos eles: Londres é maravilhosa pra quem tem dinheiro. É possível viver com pouca grana? Sim. É possível se divertir com pouca grana? Sim. É maravilhoso ser turista na Inglaterra? Sem dúvidas. Mas viver aqui é só pra quem tem estômago de rei, já dizia dona Elizabeth I, primeira rainha casca-grossa deste país.

Se você largou tudo pra se aventurar nesse país geladinho, conta aí pra gente nos comentários e ajude a traçar um retrato mais fiel da realidade para aqueles que têm pensado na possibilidade de fazer o mesmo. Sempre bom trocar experiências.

8 comentários:

  1. Davi Salazar20/10/14 12:15

    Adorei. Choque de realidade. Quanto à questão de largar tudo para fazet algo mais interessante, também tenho pensado muito nisso, independente de onde é. Pode ser aqui no Brasil mesmo. Bjos.

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    1. Oi, Davi!
      Olha, não sabia desse seu entusiasmo pelo desconhecido. rs Seja lá o que for que você tenha em mente, espero que se concretize lindamente, pra nunca se arrepender. Sempre faço as coisas pensando se vou me arrepender. Mas se depois não faço, acabo me arrependendo de não ter tentado e fico aí, nesse círculo que jamais termina. hehehehe
      Beijocas!

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  2. É bem verdade tudissaê! Não posso reclamar porque tudo se encaminhou pra dar muito muito certo pra mim, mas reconheço que sou uma pessoa muuuito abençoada!!
    É preciso ter ciência mesmo da grana, da coragem e do "botar a cara a tapa" quando botar o pé na terra do lado esquerdo. Melhor: Bem antes disso. Quando botar o pé aqui já tem que ser pra meter a mão na massa e não ficar botando coisas na balança ainda.
    Enfim... Desejo sorte a quem se aventurar e minha dica é uma só: Correr atrás, simples assim. Ninguém vai bater na tua porta com duas oportunidades de emprego e Libras e Libras pra te dar.
    :) issaeeeeee Marloca! Tamo juntcho!

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    1. Falou tudo, Rafa.
      Nada de vir pra cá e começar a pesquisar coisas e tal. É preciso fazer isso com muita antecedência e pesar os prós e contras muito antes de cá vir. Um catalão chegou aqui semana passada pra arrumar emprego, ligou pra 3 ou 4 agências de emprego; olhou 2 ou 3 casas pra alugar, disse que não encontrou nada e resolveu ir embora em uma semana. Quase não acreditei quando minha amiga me contou. Se eu não tivesse visto toda a treta acontecendo, ia achar que ela tava de zoeira com a minha cara. Eu não sei nem dizer quantas casas eu olhei antes de achar esta daqui. E imagino quantos currículos você pode ter distribuído pra conseguir seu emprego e seus contatos (às vezes mais importantes que o emprego em si, né?).
      Rafa, você arrasa! Inclusive como miguxo que ajuda as miguxas brasileiras em apuros!
      Beijos!!

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    2. Issae! Aaaah os contatos, o que seria de nós sem eles. Hebeheheh
      Tamo junto, os miguxo e as miguxa e é nóizes! Hehehe Beeejo!

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  3. A verdade é que as percepções mudam enquanto se é turista, enquanto se é turista com bastante dinheiro pra gastar e enquanto se é morador. Daí, morador com ou sem dinheiro vai determinar todo o resto. Em um exemplo mais nacional, tenho um relato parecido com o seu, porém sobre o Rio de Janeiro. Morei em Goiânia (sou amiga do Renatinho, por isso conheci seu blog e adoro, alias), em Cuiabá, onde fiz Jornalismo na UFMT e fui passar um ano no Rio pra fazer uma pós que tanto queria, que era meu sonho. Foi impossível continuar lá. Infelizmente, os salários são muito baixos e, por incrível que pareça, os cariocas muito fechados no quesito fazer uma amizade mais duradoura. Fui feliz e volto sempre que posso pra lá, mas não é pra mim enquanto jornalista.

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    1. Oi, Isa! Obrigada pelo comentário! Sabe, eu sou carioca e acho o Rio super over rated. Não é à toa que eu escolhi Goiânia pra viver, mas entendo a fissura da galera que vai pro Rio como turista e acha que quer morar lá para sempre. Que pena que não deu certo dessa vez. De qualquer maneira, sou dessas que acha que toda experiência é válida nessa vida. Uma beijoca!

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    2. Acho que o legal mesmo é traçar um objetivo. Consegui terminar a pós que desejava e cumpri essa "meta". Hoje sou feliz pela experiência. Já morei fora por um ano quando estava pra fazer 18 anos (há um século, rs) e também considero esse ano fundamental pra minha vida. Quando fui pra Londres, em 2011, só a passeio, uma prima morava com o namorado na cidade. Lembro que ela estava trabalhando em dois lugares e ele em TRÊS! Eu nem acreditei nisso. Eles tinham ido pra "juntar dinheiro", mas três empregos, pra mim, ultrapassava todo o limite humano, kkkkk.Enfim, tudo é experiência, eu acho, pelo menos. Ah, tenho um blog que serve pra "guardar" minha memória, se quiser passar lá é o elaviaja.wordpress.com bjs

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